1987 – Texto de Antonio Callado para o nº 14 da Revista Ventura sobre a exposição individual na Galeria GB Arte

Revista Ventura – 1987
Revista Ventura – 1987
Revista Ventura – 1987

“Nas esculturas de Evandro Carneiro não há nenhum enigma ou inquietação. Com concisão e ordem, ele contém o delírio para nos revelar uma límpida geometria, o equilíbrio e a serenidade das formas, como na cultura clássica, mediterrânea.

Evandro Carneiro já era um nome conhecido como marchand de tableaux e connaisseur de arte antes de se tornar, de repente, aos 41 anos, criador de arte, escultor. Foi como se, no meio de sua carreira de crítico Bernard Berenson, em vez de analisar pinturas, começasse a pintar um quadro atrás do outro.

Eu compareci à exposição inaugural de Evandro na GB Arte, em 1987. Dei aquela primeira volta de praxe, meio distraído mas assentindo vagamente com a cabeça. Em seguida fui olhando de perto, com estupefação, o bronze do Pescador, do S. Sebastião, o delicado e numeroso mármore das Seis Cabeças e do Torso, a Mulher Sentada. A exposição não era (como, confesso, imaginei que fosse) de um diletante, capaz de dominar mentalmente uma técnica e produzir obras de bom gosto e bom acabamento. Ali estava eu, ao contrário, diante de esculturas modernas de execução e clássicas de inspiração, ocupando solidamente seu espaço. Uma vez vistas, era difícil imaginar seus lugares vazios. Tinham vindo para ficar. Pelo jeito – fui dizendo a mim mesmo, enquanto me acotovelava entre os visitantes e os garçons que ofereciam vinho branco- tal como Palas Atenéia saindo pronta da cabeça de Zeus, o escultor tinha saído feito e acabado da cabeça do marchand de tableaux.

Há, como vim a saber pelo próprio Evandro, uma explicação, ou melhor dizendo, meia-explicação. Cronologicamente, o artista surgiu antes. Nascido em 1946, aos 14 anos Evandro já freqüentava os cursos do MAM, no Rio, estudando com Ione Saldanha e Ivan Serpa. Foi, depois, para a Escola Nacional de Belas Artes, onde aprendeu a modelar o barro, e esculpir. Seu ingresso no mercado de arte em 1965 é que interrompeu sua educação artística formal. Na sua Bolsa de Arte, passou vinte longos anos longe do barro e do gesso.

Essa é a meia-explicação a que me referi. Porque, como é que Evandro Carneiro conseguiu trancar em si durante tanto tempo tantas e tão fortes esculturas, não sei. Ele é discreto, reservado quando fala no assunto. Como um monge que um belo dia, com  a maior naturalidade, nos apresentasse sua imensa e vigorosa prole.

Sempre que perdem confiança em si próprias, por perderem confiança em sua época, as artes se voltam para a Antiguidade clássica. Tal como ocorreu depois da Primeira Guerra Mundial. Basta lembrar as monumentais mulheres que Picasso pintou nos anos 20 para ver como o modernismo deu um tônico mergulho no Mediterrâneo grego e romano.

As esculturas de Evandro me fazem lembrar em poeta brasileiro hoje esquecido, Raul de Leoni (1895-1926). Só teve tempo, em sua breve vida, para compor um pequeno livro chamado Luz Mediterrânea. É fato significativo que esse livro teve prefácio de um amigo e admirador chamado Rodrigo Mello Franco de Andrade. Os versos de Raul de Leoni são eminentemente plásticos, esculturais. Dele se conhece, e há quem o conheça de cor, o soneto ´Argila´ (“tens legendas pagãs nas carnes claras, eu tenho a alma dos faunos na pupila”) que é a mais ilustre cantada que alguém já formulou em língua portuguesa. O conjunto de sua obra, no entanto, é que importa, o que essa obra tem de límpido espelho brasileiro a captar imagens do Mediterrâneo antigo e renascentista.

No Brasil, o academismo anda sempre por perto e nos seus calcanhares, vem, como reação, a tentação fácil da anarquia. Por isso me alegra a entrada em cena de escultura como as de Evandro Carneiro, filhas da melhor tradição deste século inseguro: buscar sempre formas novas, mas de olho na Antiguidade clássica.”