2006 – Rigor e Emoção no Toque do Bronze (Texto de Carlos Soulié do Amaral para o catálogo da exposição individual na Galeria Márcia Barrozo do Amaral, 9 de novembro a 2 de dezembro de 2006)

2006 – Exposição Individual na Galeria Marcia Barrozo do Amaral, Rio de Janeiro
2006 – Exposição Individual na Galeria Marcia Barrozo do Amaral, Rio de Janeiro

Pouco podem as palavras diante do peso do bronze.

Especialmente quando o metal se despe de sua função utilitária e surge carregado de intenção de beleza. Mais especialmente ainda, quando esta intenção emerge de um artista como Evandro Carneiro, que converte o intencional em real tangível.

Seu peso, então, ganha densidade e intensidade. Sua condição de marco histórico na evolução da espécie humana se esvai num salto prodigioso que da Era do Bronze nos traz à Era da Conquista Sideral. Sua dureza se amacia. E o metal amarelo passa a transcender sua mais intrínseca condicão física, de cobre e estanho amalgamados, para refratar brilhos e sombras, retas e curvas, invenção e combinação de massas, volumes, vazios.

Assim, o bronze vem a ser a matéria do material.

E no conjunto das cabeças que Evandro Carneiro plasmou, o bronze afirma que a imaterialidade da beleza pode ser capturada tanto quanto um perfume, tanto quanto uma música que, gravada, continua irradiando sua melodia per omnia saecula saeculorum.

Essa é a magia da arte.

O sentido e o toque dessa magia são o céu e o inferno do artista, seu hades e seu nirvana. Pois seja qual for a forma escolhida para abordar o mundo e a vida – a sonora, a escrita ou a plástica – o artista está sempre imerso na ansiedade de descobrir e de reveler os mistérios e tesouros que cavou na alquimia da estética. Para quê? Talvez para provar a si mesmo que a vida faz sentido. Talvez para libertar-se de uma predestinação inevitável, pungente, que o obriga a estudar, a pesquisar, a experimentar – e a fazer! Nessa batalha ele apropria-se de si mesmo, de sua capacidade de sentir, de refletir, de inventar e até de voar.

Por esta razão, por ter se aproximado de si mesmo, Evandro Carneiro espanta e surpreende. Aquele leiloeiro elegante e decidido, atencioso e atento, é também um artista ou será o artista um heterônimo dele? Penso que ambos. Mas isso não importa porque os dois misters são exercidos com independência absoluta. O que importa, se dermos razão ao New criticism (que, a seu modo, retoma Kant) é a obra executada, a obra em si, o resultado do esforço criador. Verificamos então que o artista já trabalhou a madeira, o granito, o mármore e o próprio bronze, quase sempre revestindo o metal de pátinas verdes, negras ou marrons. Na maior parte de suas esculturas, Evandro desenvolve formas esguias, longilíneas, ascensionais. Quando não, cria blocos maciços com relevos apenas entremostrando parcelas do corpo humano, como nas Três Graças, em que os contornos vão da cintura ao meio das coxas. Ou como numa intrigante peça intitulada Fragmento, em que somente a seção dianteira de um pé aparece, saindo de uma crosta, parte crespa e parte lisa, que lembra uma grande concha irregular e velha. As esculturas longilíneas são ocasionalmente postas na horizontal e ficam bem, tanto assim como erguidas. Isto se deve ao fato de serem elas moldadas em configurações que incorporam certos princípios do cubismo analítico, principalmente a questão dos ritmos. Assim, na sua inquietação de experimentar planos, o artista criou totens inusitados. Aglomerando torsos (sempre femininos) deitados, superpostos, a que chamou de Índices porque são sucessivas linhas corporais, ou de Torsos Interligados, quando estão na vertical, é de se ver o quanto se inquieta o olhar da dualidade estabelecida entre o positivo e o negativo.  Ou, mehor dizendo, entre a massa e o vácuo. Numa escultura chamada Índice Duplo os vazios formam a boca e os olhos do totem. Já nos Torsos Interligados os corpos se alteram, se torcem, meneiam ancas, empinam ou derramam seios, se ligam ou separam, deixando vãos que desenham clarões abstratos, porém ritmicamente harmoniosos e equilibrados. A visada (ato de concentrar a visão concentradamente) não consegue fixar-se nos dois tipos de formas. Conceptivamente diversos, cada um deles fica exigindo uma atenção especial, exclusiva. E de repente, quando notamos o golpe de astúcia armado pelo artista, essa dualidade encanta, seduz.

Também continua sedutora a famosa Maternidade de Evandro Carneiro. Datada de 1988 e medindo 110 x 103 x 70 cm, essa escultura da mulher (cujo único atavio é uma bandana que lhe envolve a testa e se fecha num laço sobre a nuca) inclinada para um bebê, tem sobriedade, graça, leveza e total domínio de si mesma. Apoiada sobre o quadril e o antebraço esquerdo, a mulher sustenta apenas a cabeça do bebê. Sua mão direita repousa sobre uma perna esticada, ao fim do braço estendido. A outra perna se dobra na direção do bebê. Deitado de costas sobre a base, ele ergue os braços. Tudo simples, tudo limpo. Depuradas em sua anatomia, as figuras não falam por traços do rosto nem por gestos retóricos. Mas tudo está claro: mãe e filho parecem quase levitar porque a felicidade é um momento de intimidade partilhada; a felicidade é serena.

São bem conhecidos e bem sólidos, portanto, os resultados do esforço criador deste artista mineiro radicado no Rio. Algumas de suas esculturas já estão em áreas públicas – praças, shopping centers, parques – intrigando olhares avisados e desavisados, o que é seguramente uma proeza neste país desatento à floração artística, com 85% de analfabetismo funcional (conforme recente apuracão do IBGE) e neste tempo que se diz pós-moderno porque submete o exercício da razão ao suprematismo do poder, exercido em nome de um coletivismo massificado e manipulado pelos interesses de consumo.

Mas quando surge, pronta e acabada a série de cabeças que enforma esta exposição, um grande espanto se dá. Espanto positivo e alentador, é bom frisar, diante de um artista que acolhe e sintetiza a diversidade, não subjugando o real a esquemas pré-definidos, mas transformando-o em conhecimento revelado pela lógica imprevisível da imaginação criadora. Espanto que corporifica o conhecido verso do sábio poeta Drummond, pois eis que um episódio novo acontece na vida de nossas retinas tão fatigadas.

De chofre, o conjunto nos alerta a não perder a referência do tema capital ante a diversidade com que se apresenta. Afinal, a cabeça é o nicho do encéfalo e de quarto dos cinco sentidos que dotam o ser humano de percepção sensória. Ela dá fisionomia, particularizando os animais da biosfera, dá caráter às pessoas e dá medida às relações escultóricas do corpo, assim como, na hipologia, às relações dinâmicas. Antonio Feliciano de Castilho dizia que a cabeça é ‘um capitólio com seu senado onipotente; tão senado e tão capitólio que até os reis e os deuses são ali feitos e desfeitos, julgados e setenciados’.

De magnitude assim vasta e complexa, o tema foi apanhado pelo artista na caldeira do real e transportado para um lugar de paz e de unidade silenciosamente recolhido: o lugar geométrico das três dimensões, um lugar sedento de sopros luminosos em que o bronze estremece refletindo o enlace entre o peso racional e o peso emocional, flanqueando em cada cabeça um mundo habitado pela metamorfose e pela poética de seu sonhador.

A decoração foi vedada. Nenhum vestígio, nenhum traço decorativo ‘adorna’ as cabeças de Evandro. Companheiras da longa maturação do artista, cada uma delas foi intensamente pensada e sentida. Por isso, ultrapassam os furores dionisíacos e brotam apolíneas, monumentos de pura essencialidade. Esse rigor que não afasta a emoção, também não se desprende dos encantos da graça. Aquela figura de mulher sulcada do queixo à nuca (figura 7), por exemplo, tem um arco na parte posterior do crânio que tanto pode ser uma mecha de cabelo quanto uma plataforma vazada para o pouso de pensamentos. Será o que quisermos. Mas será sempre engraçada e jovial na dualidade em que o côncavo e o convexo, o ângulo e a curva, o cubo e a esfera convivem num equilíbrio talentosamente acabado. Aquela Pedra (Figura 9) que é um bloco ovóide encimado por uma leve sugestão de penteado e apenas dois furinhos na altura dos olhos guarda tanto mistério e tanta sutileza que fica sugerindo haver uma vida fervilhante por trás e por dentro dos olhos miúdos, como nas caixas de marimbondos que mostram apenas um pequeno orifício, sem revelar o ativo universo interno que encerram. A textura epitelial desta cabeça reforça o mistério e o brado incisivo de Frank Lloyd Wrigh: “Deus reside no detalhe”.

Seguramente será esse o ponto axial das cabeças em exposição. Não se encontrarão nelas ‘os gestos desesperados da estatuária’ do Cacto de Manuel Bandeira, de algumas obras de Rodin e de muitas pinturas de Picasso e Portinari. Mas, isto sim, a consciência e o domínio perfeito dos recursos e soluções cubistas, futuristas e construtivistas que libertam a escultura de suas raízes puramente representativas. Tal ciência abrange igualmente os períodos áureos da Grécia e de Roma, da Renascença e da arte tribal africana e polinésia. Por isso é que o artista consegue transitar da Pedra e da Cabeça Helicoidal com Feições (cuja superfície habilmente brisada parece recolher o tempo em que ele talhava no granito – figura 11) para as cabeças com rabo de cavalo, com elmo, com o penteado no estilo coque e para a fortíssima figura de cabelo volteado, intitulada Chinó (figura 8). Com conhecimento e domínio das diversas soluções plásticas, o artista adquiriu, sem engessar-se nelas, mais liberdade para impregnar suas formas de sensibilidade própria, original, ligada ao fio de Ariadne da corrente humanista, vinculada ao seu tempo e às suas afinidades mais profundas. Nenhuma cabeça de Evandro Carneiro, quando contemplada isoladamente, será efígie, signo ou símbolo, mas tão somente arte em si mesma, em seu feito e seu feitio; em seu fato.

E se acomodamos numa cadeira o imanentismo do comentário crítico sentimos de pronto que a suíte de esculturas provoca o quinto sentido, instigando a mão para um gesto impulsivo de comunicação táctil, para um toque nas lisas faces, no repartido dos cabelos, no encontro dos sulcos, nos volteios que o bronze faz escorregadiamente. O passeio do olhar ligeiro traz lembranças das formas plenas e arredondadas de Maillol, dos torsos e abstrações de Bruno Giorgi, evoca Brancusi e Archipenko, as vênus de Milton Dacosta, evoca ex-votos, bustos arcaicos, tudo sob a tensão do arco de Eros, conforme já notaram atilados historiadores e críticos de arte, especialmente Frederico Morais, Lélia Coelho Frota, Mário Margutti e Wilson Coutinho. Nesse instante nos damos conta de como nossa memória está pesada de signos e enfartada de referências imagéticas!

É preciso fazer um download urgente de tudo que se acumula em nossos olhos viciados de arquivos e epígrafes! É preciso reencontrar as pupilas vigorosas, frescas, alegres e saudáveis que encaram a arte diretamente, descobrindo e redescobrindo a beleza que acontece – e quando acontece – sempre de modo inaugural, sempre pela primeira vez.

Bem esse é o processo de Evandro Carneiro. Ele apura e depura as obras que vai sonhando, desdobra-as em partes que chama de ‘módulos de criação’, descobre junções e ligações inesperadas e obtém variantes autônomas, que falam com independência e personalidade própria. Certos elementos constitutivos se repetem. Nada mais normal. As notas musicais também se repetem. São apenas sete.

Aproximações genético-comparativas são úteis quando visam a enfatizar que a arte vive e se alimenta de si mesma, num contínuo diálogo histórico, social e interpessoal pautado no diapasão da liberdade e na expressão que inspira e transpira liberdade. Não faz sentido apartar o que há de histórico e o que há de pessoal na obra de um artista porque todo artista é ao mesmo tempo histórico e pessoal. A propósito, Henry Moore, certamente um dos grandes artistas do século 20, ponderou o seguinte: ‘o observador de escultura que seja sensível deve aprender a sentir a forma simplesmente como forma, não como descrição ou reminiscência’, ressaltando que o significado e a importância da forma em si dependem, provavelmente, de inúmeras associações na história do homem’.

As cabeças de Evandro Carneiro nos levam a encontrar a beleza no âmago das situações históricas da arte e no âmago de si mesmas. Carregadas de um eu totalmente peculiar, situado entre o ego e o id, são imantadas de uma unicidade com frequência chamada clássica, pois surgem perfeitamente enquadradas no raio x daquela condição que Sérgio Milliet apontava como essencial à verdadeira obra de arte, a euritmia, a harmonia e o acerto na composição das diferentes partes de um todo.

Envoltas nos altos ares da monumetalidade e da independência, com grande senhoria e belos donaires, elas nos convidam a uma fruição íntima, a um convívio cordial e mais aconchegado. Nesse convite o peso do bronze lembra quão pouco podem as palavras. O artista que expõe seus sentimentos, sua ciência e sua alma de maneira não verbal entrega suas cabeças silenciosamente, sabendo que o convívio com elas será principalmente o de um diálogo interior. O bronze vai falar em cada lampejo refletindo, em cada sombra aninhada nas urnas côncavas, em cada quina ou curva. Mas não haverá palavras.”

Galeria Márcia Barrozo do Amaral, 9 de novembro a 2 de dezembro de 2006
Texto de Carlos Soulié do Amaral para o catálogo da exposição