1990 – Evandro Carneiro: clássico, contemporâneo (texto de Frederico Morais no folder da exposição individual na Galeria Ipanema, 08 a 26 de maio de 1990)

1990 – Exposição Individual na Galeria Ipanema, Rio de Janeiro
1990 – Exposição Individual na Galeria Ipanema, Rio de Janeiro

Evandro Carneiro freqüentou a Escola Nacional de Belas Artes entre 1964 e 1965. As alternativas de aprendizado, ali, eram poucas, e Evandro, entre ‘o ensino mais livre e criativo de Zaluar’ e ‘o ensino mais rígido e técnico de Onofre Penteado’, optou por este último. Reafirmou esta opção quando passou a frequentar as aulas de Celita Vaccani, pois, como ele mesmo afirmou no catálogo de sua primeira individual (GB Arte, 1987), ‘queria ser um artista de formação clássica’.

Hoje, 25 anos depois, e quarto após ter retomado a escultura, esta opção evidencia-se em seus trabalhos. Como escultor, seja pela ortodoxia dos materiais empregados (bronze, mármore, granito e madeira), seja pela persistência de alguns temas – Ícaro, Prometeu, Guerreiros – ou por sua aproximação à escultura grega, seja, principalmente, pela economia expressiva e pelo despojamento formal, Evandro é, indiscutivelmente, um clássico.

É preciso, entretanto, não confundir os conceitos. Quando Evandro diz que queria ser um artista de formação clássica, ele está afirmando que buscou na ENBA uma sólida base acadêmica, ou técnica, tendo como modelo a cultura clássica. Winckelman, ao introduzir as principais categorias no estudo da arte grega, interpretou-a como ‘nobre simplicidade, serena grandeza’, definindo a beleza como um estudo de equilíbrio ideal, que exclui a paixão e, portanto, a expressão plástica da mesma. O brasileiro Deoclécio Redig de Campos, que durante tantos anos foi diretor da Pinacoteca do Vaticano, empregou um outro termo para definir esta ‘aspiração grega à justa medida, à perfeição e à beleza’: realismo ideal. Para Redig de Campos, o homem grego ‘tentava, por assim dizer, realizar a intenção secreta da natureza, evocando a imagem de um homem que pudesse viver se algum Pigmalião conseguisse animá-lo, e que fosse, então, o mais belo dos homens’.

Mas a Grécia foi apenas o primeiro território da arte clássica, no século de Péricles. Outros momentos existiram como a alta Renascença italiana, o Neoclassicismo francês, o Cubismo e a Arte Concreta. Ou seja: se é possível localizar numa determinada geografia e num dado momento estas ‘estreitas cumeadas’ que é como Wolflin definia os momentos clássicos, raros e de curta duração. Pode-se dizer, também, que essa vontade de ordem e de equilíbrio é universal e intemporal. Esta vontade está em Fídias como em Brancusi, em Poussin como em Mondrian, em David como em Lichtenstein, em José Pedrosa como em Amílcar de Castro. É neste sentido que se pode dizer que Evandro Carneiro é um escultor clássico… e moderno.

É certo que ele ainda se deixa encantar pela sensualidade das pátinas e texturas, criando uma matéria buliçosa e inquieta na superfície do bronze, na qual, por vezes, ele resvala por um certo Surrealismo magrittiano. Porém, Evandro distancia-se tanto do Expressionismo (que é de origem nórdica) e do Surrealismo, quanto da vanguarda, e estes momentos assinalados acima não devem ser assinalados como um desvio de rota. No primeiro caso é fruto de sua paixão pelos materiais e matérias, o que é comum a todo verdadeiro artesão, o que Evandro, indiscutivelmente, é. No Segundo caso, devaneios oníricos de um criador que ama a concisão e a ordem. A verdade é que na escultura de Evandro inexistem delírios subjetivos ou agitação. Ele tem em comum com Ceschiatti ou Giorgi, para citar dois escultores brasileiros que admira, a sensatez, o equilíbrio e a serenidade das formas, qualidades da cultura clássica, mediterrânea, que reaparecem, de tempos em tempos, como que para contrabalançar o caráter anárquico das vanguardas.

Mas ao mesmo tempo que soube conter em sua obra esta vertente irracionalista do Surrealismo, Evandro percorreu uma via metafísica, sem, contudo, cair nos excessos literários do movimento criado por Chirico. O que só foi possível porque, simultaneamente, aproximou-se do Cubismo, que é uma das fontes do ‘classicismo’ moderno. Um similar brasileiro dessa síntese cubo-metafisica é Milton Dacosta e Evandro é um escultor ‘dacostiano’, como se pode comprovar confrontando-se algumas de suas esculturas em granito com as figuras femininas de Dacosta ou a extrema horizontalidade do seu ‘Ícaro’ com a tela ‘Sobre a horizontal’ do mesmo pintor.

Enfim, esta ‘leve dose de espectralismo e de mistério’ que perpassa por algumas esculturas de Evandro Carneiro não colide com sua clara vontade de forma.

Rodin surpreendia seus contemporâneos ao afirmar que não era um sonhador, mas um matemático, e que sua escultura era boa porque era geométrica. Evandro, mesmo sendo um intuitivo, poderia dizer o mesmo. Suas esculturas, independentemente dos temas, cabem rigorosamente dentro de invólucros geométricos: retângulos, triângulos, e losangos. A curva plena está ausente (o que quer dizer que ele também não é barroco) e as horizontais prevalecem sobre as verticais, contrariando, assim, a tradição antropocêntrica da escultura. Pode-se mesmo afirmar que Evandro é um escultor abstrato, por vezes bem próximo da pureza formal de um Brancusi. Não chegou à subversão baselitiana de virar as figuras de cabeça para baixo, mas derrubou-as (como em ‘Ídolo Caído’) ou distribuiu os fragmentos de figuras e objetos sobre suportes horizontais (‘Guerreiro’, ‘Sabinas’). Nos rostos esculpidos em granito, a ausência dos olhos impõe às peças o silêncio revelador da forma pura. Não há neles nenhum enigma ou inquietação, apenas matéria e forma.

As obras de Evandro Carneiro não são o receptáculo da dor do mundo, da subjetividade do autor, elas não ilustram vivências do cotidiano nem inquietações filosóficas. São apenas esculturas. Potencialmente, ele está mais para o entalhe (isto é, para o corte, a eliminação, a síntese) do que para o modelado (que deixa sempre resíduos expressionistas).

As obras aqui expostas compõem duas vertentes, ambas diretamente ligadas ao material empregado. Nas peças realizadas com mármore e granito, Evandro mostra-se mais marcadamente clássico. Superfícies lisas, formas compactas, límpidas geometrias. Evandro começa inclinando suavemente o rosto talhado no mogno, na postura clássica, para em seguida alongar excessivamente a forma cilíndrica que se situa entre o pedestal e o rosto. Na verdade, este cilindro é simultaneamente coluna de um corpo virtual e um segundo pedestal a sustentar a minúscula cabeça. Situação algo brancusiana na medida em que o pedestal tende a ser parte do significado da escultura e não mero suporte.

O simbolismo de ‘Ídolo Caído’ não reside no eventual conteúdo descritivo da imagem esculpida, mas na subversão do classicismo que Evandro, com sua obra, ajuda a sustentar. Ou seja: estas duas esculturas guardam a aura clássica, mas já freqüentam o território da arte moderna ou mesmo pós-moderna.

A outra vertente é representada pelos trabalhos em bronze e neles há uma tensão entre tradição e modernidade, entre modelagem e estrutura. O bronze, mais ainda que o mármore, representa a tradição escultórica, por sua resistência ao tempo, por sua capacidade de mimetizar todos os demais materiais, pela complexidade de sua técnica.

Através do bronze, Evandro homenageia a escultura grega, tanto àquela arcaica, de Esparta (‘Guerreiro’), quanto às pequenas estatuetas de terracotta encontradas na Necrópole de Tanagra, e que eram um elogio à beleza do corpo feminino. Ao mesmo tempo, porém, elas se inserem na modernidade, através da fragmentação e da estrutura de arranjo. Evandro, que já fizera corpos sem cabeças ou braços, cabeças sem corpos, agora secciona braços, pernas, pés ou asas para, em seguida, remontá-los em estruturas dramáticas ou em pequenas narrativas miniaturizadas, que pedem do espectador uma leitura silenciosa e sobretudo imaginativa. Fragmentos também de mitos, pois o que sobrou da asa do Ícaro em sua queda no mar, depois de libertar-se do labirinto de Creta, encontra-se agora ao lado da perna musculosa do titã Prometeu, aquele que ousou roubar o fogo do Olimpo para entregá-lo aos homens. Símbolo do artista-artesão, capaz de consumir-se até as entranhas no seu afã-criador.

Ampliando este processo desmitificador, Evandro miniaturiza corpos, diversos no modelado, nos cortes, posturas e texturas, corpos que são, em seguida, enfileirados sobre base extensamente horizontal, como se ele quisesse criar, ali, uma espécie de pauta musical, cada estatueta valendo como uma nota, e, todas juntas, armando um desenho no espaço, sinuoso e rico de tonalidades. Ou, então, são empilhados e colados uns aos outros como ginastas num estádio, quase-placas ou relevos de esculturas-xipófagas. Estas estatuetas se transformam, assim, em módulos para composições que podem ser infinitas, como nas colunas de Brancusi.

Se aplicarmos a Evandro Carneiro a distinção proposta por Margit Rowell para a escultura contemporânea, diríamos que, na primeira vertente, Evandro busca uma ‘estética da natureza’, tendo o homem como medida; na segunda, uma ‘estética da cultura’, tendo a arte como medida. Difícil dizer, neste momento, qual destas duas vertentes irá prevalecer na obra futura de Evandro. Quem sabe elas até poderão se fundir em uma via mais vigorosa e original?

É esperar para ver.

Frederico Morais
Rio, carnaval, 1990