1987 – Texto de Evandro Carneiro no folder da exposição individual na Galeria GB Arte (14 a 30 de setembro de 1987)

1987 – Exposição Individual na GB Arte, Rio de Janeiro
1987 – Exposição Individual na GB Arte, Rio de Janeiro

“Sou mineiro, de Visconde do Rio Branco, nasci em 1946. Vim morar no Rio de Janeiro em 1956.

Comecei a frequentar os cursos no Museu de Arte Moderna aos 14 anos. Meus primeiros professors foram Ione Saldanha e Ivan Serpa.

Depois entrei para a Escola Nacional de Belas Artes. Lá, no primeiro ano os alunos tinham que optar pelo ensino mais livre e criativo do professor Abelardo Zaluar ou outro, mais rígido e técnico, do professor Onofre Penteado. Escolhi o segundo porque queria ser pintor de formação clássica. Através da professora Celita Vaccani, iniciei a modelagem em barro; daí para a escultura foi um passo. Com o tempo, percebi que só frequentava suas aulas e as de história da arte do professor Mário Barata.

Nesta época, meu tio Erymá Carneiro, advogado e colecionador de arte, era sócio de Jean Boghici e Jonas Prochowinik na Galeria Relevo. Fui trabalhar como vendedor, substituindo Matias Marcier, que iria se dedicar aos estudos de arquitetura. Era o ano de 1965. Tomei contato com o Mercado de arte e fiquei fascinado. Abandonei a escola e minhas esculturas. Dediquei-me à galeria integralmente.

A Relevo, além de ter obras de grandes artistas em seu acervo, fazia exposições de vanguarda nacional e estrangeira, e devo a esta época bom aprendizado.

A seguir, já por conta própria, organizei leilões e exposições em cidades fora do eixo Rio–São Paulo, que eram os únicos lugares onde existia um mercado regular de obras de arte.

Em 1970, Jean Boghici e Stanislau Barcinski me apresentaram a José Carvalho, que queria fazer uma grande casa de leilões. Assim nasceu a Bolsa de Arte do Rio de Janeiro e passaram-se 17 anos, de muitos leilões e exposições, sempre com a eficiente ajuda de José Coimbra.

Como marchand de tableaux e leiloeiro, atuei com dedicação e entusiasmo, numa atividade intensa e gratificante. É um privilégio trabalhar com obras de arte, mas requer afeto total, ficando difícil encontrar motivição para outra atividade profissional, sobretudo se correlata.

Poucas vezes, ao longo desse tempo, permiti-me ensaiar algumas de minhas esculturas. Quando isso aconteceu, senti-me estimulado, provocado e receoso. Sufocado de auto-crítica. Demonstrava um vigor latente que eu preferia deixar adormecido. Como que, se despertado, fosse subverter a ordem que eu construíra. Era como brincar com uma casa de marimbondos.

No ano passado, eu estava fazendo uma avaliação de quadros perto da Fundição Zani. Fui até lá, peguei alguns quilos de barro e levei para a minha casa. Em uma semana fiz três pequenas esculturas. Reencontrei uma satisfação enorme, e que não me arrancou pedaços. Voltei à Zani, era o período do Plano Cruzado e faltava barro. Acreditem!

Aquela abstinência de alguns dias foi crucial ou vital? Percebi o quanto tinha me afastado de minha vocação original.

A vida seguiu, e a resistência, inconsciente, também.

Até pensei em fazer uma nova galeria de arte. Se eu estava querendo criar, que criasse mais trabalho. Tudo de novo. Vade retro. Mas não foi isso que aconteceu. Concluí que precisava voltar imediatamente às minhas esculturas. Agora ou talvez nunca. ‘Quem sabe faz a hora’, cantou Vandré. Resolvi parar meu trabalho como organizador de leilões, retornando às minhas esculturas de forma completa, permanente. Mexer naquela vocação interrompida.

No início, tive medo de começar e não parar mais, abrindo mão de uma posição cômoda, conseguida em 22 anos de trabalho no mercado de arte. Mas retomei. Hoje, apenas apregôo, entre outros, os leilões organizados na Bolsa de Arte pelo Jones Bergamin, e com total disponibilidade de tempo, dedico-me ao meu novo trabalho.

Assim, estou aqui, nesta exposição da G. B. Arte. Com o incentivo de minha mulher Adriana e dos meus amigos Jean Boghici, Bruno Giorgi e Ramon Conde, apresento minhas esculturas. Resgatadas, sujeitas a chuvas e trovoadas, mas que são o melhor de mim.

Evandro Carneiro
Rio de Janeiro, setembro de 1987.