2011 – A Musa Marília na Casa de Dirceu (texto de Carlos Soulié do Amaral sobre a escultura Marília de Dirceu)

Marília de Dirceu (bronze)

“A inspiração de Tomás Antônio Gonzaga é eternizada em escultura de bronze do artista mineiro Evandro Carneiro. Carlos Soulié do Amaral, especial para O Estado.

Somente agora, 225 anos depois de ter feito vibrar o coração e a lira de Tomás Antônio Gonzaga, Marília entrou na casa de Dirceu, nome usado pelo poeta da Arcádia Mineira que o crítico Nelson Werneck Sodré considera ‘só ultrapassada por Camões, em nossa língua’, que Antonio Candido coloca ‘dentre os sete ou oito que trouxeram alguma coisa à nossa visão de mundo’ e que o delator Joaquim Silvério dos Reis apontou como cabeça da Conjuração Mineira.

Foi no dia 9, na abertura do 6o Festival de Inverno de Ouro Preto, que Marília surgiu no bronze da escultura do artista mineiro Evandro Carneiro. O busto tem um furo circular no peito, o colo liso coberto por um vestido com decote côncavo, onde pousa um passarinho; um rosto cortado por duas fendas horizontais e duas verticais, formando a grade da prisão em que o artista viu encarcerado o amor da musa e os cabelos cobertos por um xale.

‘Essa escultura nos remete ao deus Jano, divindade romana bifronte, guardadora dos caminhos, assim como aos bustos relicários do Aleijadinho’, disse o prefeito Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, que já foi ministro da Cultura e exerce o seu terceiro mandato no comando de Ouro Preto. ‘Na verdade, ela é um ato de amor à poesia e à história de Vila Rica’, disse Evandro Carneiro. Horas antes ele havia acompanhado a inauguração de outra obra sua, Aquavia, no Horto dos Contos, o parque que atravessa a cidade seguindo o percurso do Córrego do Tripuí, ao lado da famosa casa dos Contos, onde se fundia o ouro de Vila Rica.

Nesse córrego, em 1690 foram colhidas umas pepitas de metal escuro que se revelaram blocos de ouro recoberto por óxido de ferro, o ‘ouro preto’.

Em busca do Tripuí saiu de São Paulo a bandeira de Antonio Dias. Penou esse bandeirante para achar o referencial indicativo do lugar que descobriu junto com o ouro.

Em 4 de junho de 1698, com uma missa na borda do córrego, nasce assim o arraial de Vila Rica. E, com ele, a febre do ouro. Em Portugal houve uma fuga dos homens válidos para as Minas, reduzindo algumas províncias, como a do Minho, a número ínfimo de varões.

De Pernambuco, da Bahia e do Rio afluíram mais mineradores e escravos. Os paulistas consideravam os forasteiros ‘emboabas’, usurpadores da riqueza por eles descoberta. Para pôr em ordem na guerra que explodiu entre os dois lados. D. João V criou, em 1709, a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, com governo próprio, entregue a Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho. Em 1711, cria as comarcas do Carmo (Mariana), Vila Rica de Albuquerque e Sabará. Em 1720, Minas torna-se independente de São Paulo. Somente em 1823 Vila Rica vira Ouro Preto, por Carta de Lei de D. Pedro I. Em 1897, já na República, Belo Horizonte ganha o foro de capital mineira.

Foi, portanto, na capital de Minas que arribou, em 1782, o magistrado Tomás Antonio Gonzaga, nascido na cidade do Porto (1744), filho de pai brasileiro e mãe portuguesa. Formado em Coimbra, instalou-se na casa que acolheu o busto de bronze de sua amada. Em novembro de 1786 foi promovido a desembargador da Relação da Bahia. Animado pela promoção, pediu em casamento a jovem Maria Joaquina Dorotéia de Seixas, a celebrada Marília, de 16 anos, solicitando licença real para o enlace. Enquanto esperava, escrevia as Cartas Chilenas, obra satírica em que o governador e o delator ‘Silverino’ são espinafrados. E compunha suas liras, no estilo neoclássico do arcadismo.

Ainda esperando autorização para casar, Gonzaga foi preso em 23 de maio de 1789 e remetido para a Ilha das Cobras, no Rio, de onde embarcou, em maio de 1792, para o degredo em Moçambique. No mesmo ano saiu publicada em Lisboa a parte 1 da Marília de Dirceu. A parte 2 saiu em 1799, estando o poeta em África, casado com a rica filha de um mercador de escravos. Bem de vida, embora exilado, morreu em 1810.

Marília, a sua pastora, permaneceu em Vila Rica até morrer, em 1853, com 82 anos, solteira. Talvez, ao crepúsculo, se consolasse com os versos que abrem a Lira XII: ‘Minha bela Marília, tudo passa; / A sorte deste mundo é mal segura; / Se vem depois dos males a ventura, / Vem depois dos prazeres a desgraça’”.

Carlos Soulié do Amaral
O Estado de S. Paulo (Caderno C2+ página D14)
23 de julho de 2011