2012 – O Futuro de Dom Quixote (texto de Mário Margutti sobre a inauguração da escultura Dom Quixote no Pavilhão Dom Quixote do Instituto Mário Mendonça)

2013 – Inauguração da escultura “Dom Quixote”, Tiradentes

Evandro Carneiro enfrentou o desafio de criar uma escultura de Dom Quixote numa perspectiva pessoal do tema, diferente das visões convencionais do Homem de La Mancha. A dificuldade não foi pequena: artistas do porte de Gustave Doré, Pablo Picasso, Salvador Dali e o nosso Cândido Portinari nos deram visões consagradas do Cavaleiro da Triste Figura. E incontáveis artistas plásticos, mundo afora, também foram mesmerizados pelo personagem de Cervantes, que encarna melhor do que qualquer outro a força dos sonhos e da imaginação criadora sobre a realidade insossa do nosso cotidiano.
Evandro enfrentou o desafio e venceu. Seu Dom Quixote é especial, porque foi concebido como uma relação dinâmica e contrastante entre o cavaleiro e sua montaria. Dom Quixote está de pé e segura a lança com ambas as mãos. Sua figura transparece leveza, determinação, serenidade. Condensa uma força vertical, que aponta para o alto, para os vôos ilimitados da inspiração humana. Já o cavalo Rocinante foi articulado como um jogo de curvas e torções corporais, que contorna Dom Quixote como uma espécie de círculo mágico. Evandro esclarece: “O cavalo representa o turbilhão de aventuras que envolveu Dom Quixote na Espanha daquele tempo”. Nessa visão conotativa, cavaleiro e cavalo teatralizam o combate entre sonho e realidade, entre as chamas da imaginação (a louca da casa) e a frieza da razão. Como se pode ver claramente na obra de Evandro, Dom Quixote saiu incólume desse confronto.
Outro detalhe instigante: Rocinante aproxima sua cabeça de Quixote com imensa carga de afeto, submisso como um cão a seu dono. Assim Evandro nos coloca em contato direto com o poder interior de Quixote, a integridade do seu caráter efetivamente heróico. Ele não foge da luta porque jamais desiste de seus ideais e, por isso, atravessa a noite dos séculos, inspirando sem cessar o trabalho de artistas nos quatro cantos do mundo. Afinal, todo artista, na medida em que prefere o universo paralelo de suas criações à aridez das engrenagens da vida diária, também carrega dentro de si uma dose inegável de quixotismo…
Este Dom Quixote é uma das esculturas mais figurativas já criadas por Evandro Carneiro. Em geral, ele se dedica à figuração estilizada, a um passo da abstração orgânica. Mas, nesta obra, aventurou-se em um processo de modelagem realista. Mas, como criador expressivo que é, esculpiu cavalo e cavaleiro em ritmos matéricos diferentes. Rocinante foi plasmado em uma dança de linhas curvas e massas musculares elegantes. Modelado por Evandro, o esquálido pangaré se converteu em puro jogo de intensidades visuais, que evocam as errâncias e delírios do fidalgo pelos arredores de Toledo. Já Dom Quixote se perfila aos nossos olhos com uma retidão que poderíamos chamar de hierática: a integridade do caráter do cavaleiro, potencializada pela sua loucura, lhe confere uma aura de santidade…. E assim Evandro nos ensina que, dentro da alma alucinada do personagem que marca o início da Literatura Moderna, pulsa um coração obstinado, que não desistirá de consertar os “desarranjos do mundo”…
Refinando nossa atenção, percebemos que o Dom Quixote de Evandro olha para a frente. Simbolicamente, para o futuro. Como se estivesse consciente da densa bagagem de imortalidade que carrega em si. É curioso lembrar aqui que o próprio personagem de Cervantes, no capítulo 2 do livro que o projetou para a fama mundial, profetizou:
Feliz idade e feliz século aquele onde sairão à luz as minhas famosas façanhas, dignas de serem entalhadas em bronzes, esculpidas em mármores e pintadas em telas para a memória do futuro…
Ao doar sua obra para o Pavilhão Dom Quixote do Instituto Mário Mendonça, Evandro introduziu neste espaço específico da entidade uma espécie de guardião do acervo local, um espírito tenaz, que a partir de agora zelará pelas obras e pelos sucessos, do presente e do futuro, deste acolhedor centro cultural da cidade de Tiradentes.

Mário Margutti
agosto de 2012

‘Tudo que sei de Quixote vem do inconsciente coletivo. Esta escultura é um filtro, é o Quixote que eu vejo. Ele vive num mundo de conflitos éticos e religiosos… O cavalo assume uma importância que nunca teve e se movimenta num torvelinho que era a Espanha naquela época, a da Inquisição. O Quixote sempre será contemporâneo e tem importância perene. Na literatura brasileira, mostra-se em Quincas Berro d’Água e em Policarpo Quaresma. Cristo, Quixote, Tiradentes – a mesma energia.’ (Evandro Carneiro, escultor e leiloeiro).

Matéria na Revista Condomínio, da Cipa, pp. 54-59