2001 – Formas Sonhadas (Texto de André Seffrin no catálogo da exposição individual no Museu Nacional de Belas Artes, 6 de novembro de 2001 a 6 de janeiro de 2002)

2001 – Exposição Individual no Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro
2001 – Exposição Individual no Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro
2001 – Exposição Individual no Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

O Jorge de Lima que o leitor vai encontrar neste livro não é aquele normalmente encontrado nas suas antologias poéticas (aliás muito raras), que incluem os seus poemas mais significativos ou mais conhecidos do público. Aqui, os poemas e fragmentos têm a função primordial de dialogar com as esculturas de Evandro Carneiro, de maneira que o gosto do antologista se deixou conduzir antes de mais nada pelo trabalho de Evandro, que sugeriu uma leitura muito especial da poesia multifária de Jorge. Esta seleção, assim, não pôde se prender à ordem cronológica da publicação dos livros, como de resto também as esculturas não estão dispostas rigidamente em sua evolução no tempo. Um índice, no final do livro, indica a origem de cada fragmento ou poema selecionado.

Porém, à presença dominante de Invenção de Orfeu, procurou-se em alguns momentos contrapor as outras fases do poeta – a escultura de Evandro possibilitou a estratégia. Assim, aparecem pequenas amostras dos versos neoparnasianos do início da carreira, do Modernismo dos anos 20 – com a presença emblemática de um fragmento de ‘Essa negra Fulô’- , e da fase posterior, de ‘restauração da poesia em Cristo’, com a qual colaborou Murilo Mendes, um pouco de nossa vertente católica dos anos 30. Contudo, a última fase de Jorge, a parir do Livro de sonetos, predomina. Marcada pela busca obsessiva da poesia pura, território ainda inexplorado pela crítica, é fascinante a aventura de linguagem com a qual a escultura de Evandro se identifica de maneira inesperada e profunda.

O que mais irmana o escultor e o poeta? Talvez a fixacão pela figura da mulher, obscura, enigmática, mágica. No vasto estuário da obra de Jorge, nos romances, nas biografias líricas, nos ensaios, na totalidade de suas fases, a imagem da mulher é um sol visto de todos os lados. Essa imagem é evocada sob o mesmo prisma em Evandro, que a trabalha com o esmero do poeta. Nesses trânsitos de luz e sombra, floresta de símbolos e de ícones, suas criaturas são ‘formas sonhadas’.”

André Seffrin

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